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nome do post Estado mental flow e corrida Escrito por: adm
Treinos 06 de Fevereiro de 2019

Você corredor, sabe o que é o flow feeling ou estado mental flow? Se você não sabe o que é, com certeza já o sentiu enquanto corria.

A teoria do flow feeling surge a partir de teoria da motivação (visto em posts anteriores). O termo flow foi escolhido para nomear experiências em que as pessoas, em depoimentos em pesquisas, utilizavam esta metáfora para descrever este sentimento de ação sem esforço que experimentavam nos melhores momentos de suas vidas. É claro que a tradução para flow feeling pode ser sentimento de fluidez ou simplesmente fluxo. Mas normalmente se usa a expressão original em inglês, porque ela se difundiu mundialmente desta forma.

A teoria do flow feeling foi proposta por Mihaly Csizkzentmihalyi a partir da década de 70. Mihaly nasceu na Itália, em 29 de setembro de 1934, e durante a 2ª Guerra Mundial foi preso e descobriu o jogo de xadrez para se distrair e esquecer tudo que acontecia na prisão. Mais tarde, na Suíça, conheceu Carl Gustav Jung, que o ajudou a encontrar o caminho da sua própria pesquisa sobre a felicidade. Acabou migrando para os Estados Unidos e a consolidação definitiva da sua teoria do flow começou com suas investigações sobre os motivos pelos quais algumas pessoas se encontram altamente envolvidas em atividades sem nenhuma recompensa externa óbvia.

Mas o que é o Flow?

Jackson e Eklund (2002) definem “estado psicológico ótimo que representa momentos em que tudo favorece a performance; Freqüentemente está associado a altos níveis de performance e experiências altamente positivas”.

Vale ressaltar alguns aspectos comuns a quase todas as definições que podem ser destacados: O alto nível de concentração, a satisfação e apreciação por sentir o flow e a relação com o rendimento ótimo

O fluxo pode ser experimentado em qualquer atividade, no entanto, há alguns tipos de atividade que facilitam a entrada neste estado de consciência, como por exemplo, os esportes, jogos, a dança, a música, entre outras. O que torna essas atividades condutoras ao fluxo é que elas são designadas a tornar a experiência ótima mais fácil de ser atingida, pois possuem regras que requerem o aprendizado de habilidades, estabelecimento de metas, proporcionam feedback, e tornam o controle possível. A principal busca do fluir, independentemente da atividade, é a possibilidade de um evento ou desafio fornecer satisfação.

No período de duração da corrida de rua, por exemplo, os corredores se concentram quase que exclusivamente na realidade peculiar do evento em que estão participando.

A experiência do fluxo na corrida de rua nem sempre pode acontecer. Mas existem plenas condições para que o fluxo aconteça. E foi a identificação dessas condições um dos grande legados da teoria do flow feeling. A primeira condição a ser considerada para que o flow aconteça é o equilíbrio desafio/habilidade. Ou seja: para que o flow aconteça, é necessário que o desafio esteja coerente com as capacidades do atleta.

Nesse sentido, a figura a seguir ajuda a explicar um pouco essa relação:

Quando os desafios ultrapassam as capacidades, há uma forte tendência de que ele fique ansioso; contrariamente, quando as habilidades ultrapassam os desafios, há uma forte tendência de que ele fique relaxado e em seguida entediado. A ausência de desafios significantes ou habilidades requeridas numa situação traz um estado de apatia.

Outros elementos que são essenciais para o estado mental flow são: total absorção na atividade, metas claras, fusão entre ação e consciência, concentração total na tarefa em questão, perda da consciência de si mesmo, senso de controle, transformação do tempo, movimento sem esforço.

Estudos mostram que o engajamento inicial nas atividades físicas, na maioria das vezes, se dá por algum incentivo externo (motivação extrínseca), porém, o que faz com que pessoa permaneça realizando as atividades por mais tempo são pelos motivos internos (prazer, satisfação).

Mas como eu entro no flow?

Pesquisas sobre atletas de diferentes esportes revelaram que os seguintes fatores são mais importantes para a entrada nesse estado:

  • Motivação para atuar

Estar motivado para atuar – e atuar bem – é importante para entrar no estado de fluên cia. Quando os indivíduos não têm essa motivação, é muito mais difícil atingir esse estado.

  • Atingir um nível de ativação ideal antes da atuação

Estar relaxado, controlar a ansiedade e apreciar a atividade contribuem para a fluência

  • Manter o foco apropriado

Manter um foco estreito, permanecer no presente, concentrar-se antes do desempenho e focalizar pontos-chave em uma atividade são fundamentais para manter o foco apropriado.

  • Planos e preparação antes e durante a competição

Com confiança e atitude positiva, os atletas mencionam com muita frequência o planejamento ao descrever fatores que influenciam sua entrada em um estado de fluência. Após as rotinas aquecimento, sentir-se totalmente pronto, ter um plano de competição e antecipar possíveis eventos incomuns são componentes importantes da preparação.

  • Preparação física e prontidão excelentes

Ter realizado o treinamento e a preparação necessários antecipadamente, esforçar-se e sentir que está fisicamente pronto e capaz de ter boas sessões de exercícios antes da competição são fundamentais para conseguir um estado de fluência e mantê-lo

  • Condições ambientais e situacionais ideais

Embora as pessoas possam estabelecer o tom para atingir um estado de fluência pela alteração do próprio estado interior, os atletas também citaram condições ambientais e situacionais que afetavam a capacidade de atingir esse estado. Condições como uma boa atmosfera, feedback positivo do técnico, ausência de pressões externas e condições ideais de jogo aumentam a probabilidade de a fluência ocorrer.

  • Confiança e atitude mental

A confiança é um auxílio importante para atingir um estado de fluência; inversamente, a dúvida e a exigência autoimposta podem interromper a fluência. Acreditar que pode vencer, pensar positivamente, bloquear a negatividade e apreciar o que se está fazendo ajudam a desenvolver confiança.

  • Jogo de equipe e interação

Nos esportes coletivos, entrar na fluência às vezes depende de (ou pelo menos é influenciado por) seus companheiros de time. Interações positivas como bons passes, jogar como uma unidade e comunicação aberta são úteis para atingir o estado de fluência

  • Sentir­-se bem em relação ao desempenho

O fator para entrar na fluência mais mencionados pelos atletas foi se sentir bem em relação ao próprio desempenho e movimentos. Basicamente, receber feedback de seus movimentos e estar no controle de seu corpo dá ao atleta um senso de desembaraço nos movimentos.

Quanto mais as pessoas vivenciam essas experiências de prazer e satisfação e prazer na atividade,           mais tempo e dedicação elas investem na atividade. Um estado mental como o flow realça a experiência na atividade, diferenciando-a das demais experiências cotidianas e leva as pessoas a sentirem a atividade como algo recompensador.

 

Referências

CSIKSZENTMIHALYI, M. Beyond boredom and anxiety. San Francisco: JoseyBass, 1975.

CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow: the psychology of optimal experience. New York:Happer Perennial, 1990.

CSIKSZENTMIHALYI, M. Finding Flow: the psychology of engagement with everyday life. New York: Basic Books, 1997.

GOMES, S. S.; Quando o jogo flui: uma investigação sobre a Teoria do Fluxo no voleibol. 2010. Dissertação (Mestrado em Movimento Humano) – Faculdade de Educação Física e Desporto, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2010.

JACKSON, S. A.; EKLUND, R. C. The flow scales manual. Morgantown: Fitness Information Technology, 2004.

MIRANDA, R.; BARA FILHO, M. G. Construindo um atleta vencedor: Uma abordagem psicofísica do esporte. Porto Alegre: Artmed, 2008.

SENA JUNIOR, A. W. Motivação e flow-feeling na corrida de rua. 2012. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2012.

WINTERSTEIN, P. J; MASSARELLA, F. L. A Motivação Intrínseca e o Estado Mental Flow em Corredores de Rua. Movimento, v. 15, n. 2, p. 45-68, 2009.

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